Sempre quando lembro
cada coisa pouca
seria demais
contanto que fosse
no mês de setembro
Sempre quando lembro
cada coisa pouca
seria demais
contanto que fosse
no mês de setembro
Castelo construído pela dor: a nódoa invisível dentro do corpo.
A princípio despercebida, ela se instala no centro do vulcão.
E cresce e se alimenta de mágoa, olhares trocados, palavras silêncio.
A nódoa.
Ela se infiltra no surgimento da estrela
E deixa o céu amargo toda a noite.
Ela finge cantar a Baco mas desmorona na primeira esquina.
Ela se alimenta de opiniões.
A nódoa.
Ela serve aos bons negócios e aos comerciais.
Ela finge estar sóbria,
E sorri em propagandas de margarina.
A nódoa.
Ela testa seus resultados, não acredita no amor, engana.
Diz geralmente o contrário do que sente.
Postula lucros, alimenta discórdias.
A nódoa é transparente.
A nódoa não convence mais ninguém.
I
Cigarro: um carvão branco:
não distingo entre a discrição do fogo
e a evolução da queimadura.
II
Massageio os corais do nariz escuro na onda da flama.
III
A fumaça incendiada denuncia a nave da boca.
Sorvo fundo, prateleira em que já não alcanço o livro.
Os dentes enfileirados, tortos, esquecidos:
uma biblioteca.
IV
Ao fumar, texto, não desperdiço o que não sei dizer.
Cigarro: afago o fogo e me desgarro.
AS LIVRARIAS
Ia ao centro da cidade
e acabava em livrarias,
livros, páginas, Bagdad, Londres, Rio, Alexandria:
Que cidade foi aquela
em que me sonhei perder
e antes disso acontecer
aconteceu-me perdê-la?
***
O GRITO
Estou acorrentado a este penhasco
logo eu que roubei o fogo dos céus.
Há muito tempo sei que este penhasco
nao existe, como tampouco há um deus
a me punir, mas sigo acorrentado.
Aguardam-me amplos caminhos no mar
e urbes formigantes a sonhar
cruzamentos febris e inopinados.
Você diz “claro” e recomenda um amigo
que parcela pacotes de excursoes.
Abutres devoram-me as decisoes
e uma ponta do fígado mas digo
E daí? Dia desses com um só grito
eu estraçalho todos os grilhoes.
A cidade e os livros
Ed. record 2002
Em meus lábios
a escorrer
misturados sabores
saliva e mágoa
No coração
o jorrar do sangue
que contamina
com sua vontade de morte
Na garganta
o reverberar
de inaudíveis sons
misto de gozo e dor
amargos gritos
Em meus olhos
guardadas lágrimas
fados de um porvir
a perambular em vagas
Esfera de gelo
Pêlos crispados
Crosta da Terra
revés do cio.
Multidão sem tato
Expressão muda
na face
Suspiro inacabado.
Por isso escrevem cartas
e lançam as garrafas
feito gritos no vazio.
A solidão é uma forma
de não morrer de frio.
O que passou
renasce
nas coisas que são
garganta do vento
cabelo aparelho
lençol travesseiro
jornal corredor
sapato moldura
limão beija-flor
açúcar boné
relógio adesivo
granito café
cimento torneira
livro esteira
metade da beira
o que ficou
renasce
nas coisas que vão
É fácil fazer uma nódoa.
Você não vai precisar de muito esforço.
Na verdade, as nódoas se fazem sozinhas,
basta observar.
Numa tarde de sol e calor,
É fácil fazer uma nódoa:
Basta trancar-se em um quarto
E recusar o sorvete.
Em noites de verão,
Fazer uma nódoa é virar a cerveja
ou então dedicar-se a projetos de lei,
monografias e cálculo.
Também é possível fazer uma nódoa
ao acordar:
basta ficar deitado na cama
esperando a fome ficar insuportável.
É preciso não agir,
não decidir,
não falar.
Ao ouvir um elogio,
basta negá-lo e se terá uma nódoa perfeita.
trocar a roupa e o carro
ao invés de viajar;
uma nódoa moderada.
Natais em famílias sem netos,
buzinas no parque,
palácios e bancos:
nódoas imperiais.
Óculos durante o beijo,
mãos semi-dadas,
classificados: nódoas suaves.
Você precisará de muita energia,
entretanto,
para destruir uma nódoa.
Comece por você mesmo:
vá juntando nódoas
para entregar ao Papai Noel.
Não deixe passar nenhuma.
Anote todas no seu caderninho.
Talvez no Ano Novo
você possa dançar.
EM SUA LÁPIDE
tomou duzentos comprimidos
manchas vermelhas explodiram
em sua pele
simplesmente
desmanchou
o estômago e o fígado
esta não teve pena de si mesma
poderia estar escrito
em sua lápide
NÃO VOZ
não voz do não poeta
não homem
que não vai além.
não voz do não ser,
não nada
que não houve também.
não voz do não futuro,
presentes alguém?
não voz do não ouvido,
nãonão
ressoa ninguém.
SOMBRAS
um grito de pânico
corta o sono
e apaga a memória
da cena
( duas mulheres,
uma cerca de pontas,
chão seco,
numa casa de madeira
entre sombras )