Miralume.

Maio 31, 2006

Cada coisa

Arquivado em: Diego Petrarca — miralume @ 11:58 pm

Sempre quando lembro

cada coisa pouca

seria demais

contanto que fosse

no mês de setembro

Arquivado em: Telma Scherer — miralume @ 3:41 pm

Castelo construído pela dor: a nódoa invisível dentro do corpo.

A princípio despercebida, ela se instala no centro do vulcão.

E cresce e se alimenta de mágoa, olhares trocados, palavras silêncio.

A nódoa.

Ela se infiltra no surgimento da estrela

E deixa o céu amargo toda a noite.

Ela finge cantar a Baco mas desmorona na primeira esquina.

Ela se alimenta de opiniões.

A nódoa.

Ela serve aos bons negócios e aos comerciais.

Ela finge estar sóbria,

E sorri em propagandas de margarina.

A nódoa.

Ela testa seus resultados, não acredita no amor, engana.

Diz geralmente o contrário do que sente.

Postula lucros, alimenta discórdias.

A nódoa é transparente.

A nódoa não convence mais ninguém.

Maio 30, 2006

Cigarro

Arquivado em: Carlos Besen — miralume @ 1:01 am

I

Cigarro: um carvão branco:

não distingo entre a discrição do fogo
e a evolução da queimadura.

II

Massageio os corais do nariz escuro na onda da flama.

III

A fumaça incendiada denuncia a nave da boca.
Sorvo fundo, prateleira em que já não alcanço o livro.

Os dentes enfileirados, tortos, esquecidos:
uma biblioteca.

IV

Ao fumar, texto, não desperdiço o que não sei dizer.

Cigarro: afago o fogo e me desgarro.

Maio 28, 2006

2 Poemas de Antonio Cícero

Arquivado em: Poetas Convocados — miralume @ 5:47 pm

AS LIVRARIAS 

  •  
    •  
         Para 
        Alberto Mathias

Ia ao centro da cidade 
e acabava em livrarias, 
livros, páginas, Bagdad, Londres, Rio, Alexandria: 
Que cidade foi aquela 
em que me sonhei perder 
e antes disso acontecer 
aconteceu-me perdê-la? 

***

 

O GRITO 
Estou acorrentado a este penhasco 
logo eu que roubei o fogo dos céus. 
Há muito tempo sei que este penhasco 
nao existe, como tampouco há um deus 
a me punir, mas sigo acorrentado. 
Aguardam-me amplos caminhos no mar 
e urbes formigantes a sonhar 
cruzamentos febris e inopinados. 
Você diz “claro” e recomenda um amigo 
que parcela pacotes de excursoes. 
Abutres devoram-me as decisoes 
e uma ponta do fígado mas digo 
E daí? Dia desses com um só grito 
eu estraçalho todos os grilhoes. 

 

 A cidade e os livros

Ed. record 2002

 

 

Maio 26, 2006

Beijo

Arquivado em: Carla Laidens — miralume @ 6:49 pm

Em meus lábios

a escorrer

misturados sabores

saliva e mágoa

No coração

o jorrar do sangue

que contamina

com sua vontade de morte

Na garganta

o reverberar

de inaudíveis sons

misto de gozo e dor

amargos gritos

Em meus olhos

guardadas lágrimas

fados de um porvir

a perambular em vagas

Para não morrer de frio

Arquivado em: Lorenzo Ribas — miralume @ 1:31 am

Esfera de gelo

Pêlos crispados

Crosta da Terra

revés do cio.

 

Multidão sem tato

Expressão muda

                     na face

Suspiro inacabado.

 

Por isso escrevem cartas

e lançam as garrafas

feito gritos no vazio.

A solidão é uma forma

de não morrer de frio.

Maio 24, 2006

Coisas que são

Arquivado em: Diego Petrarca — miralume @ 4:41 pm

O que passou

renasce

nas coisas que são

garganta do vento

cabelo aparelho

 lençol travesseiro

 jornal corredor

sapato moldura

limão beija-flor

açúcar boné

relógio adesivo

granito café

cimento torneira

 livro esteira

metade da beira

o que ficou

renasce

nas coisas que vão 

Maio 23, 2006

Introdução

Arquivado em: Telma Scherer — miralume @ 7:43 pm

É fácil fazer uma nódoa.

Você não vai precisar de muito esforço.

Na verdade, as nódoas se fazem sozinhas,

basta observar.

Numa tarde de sol e calor,

É fácil fazer uma nódoa:

Basta trancar-se em um quarto

E recusar o sorvete.

Em noites de verão,

Fazer uma nódoa é virar a cerveja

ou então dedicar-se a projetos de lei,

monografias e cálculo.

Também é possível fazer uma nódoa

ao acordar:

basta ficar deitado na cama

esperando a fome ficar insuportável.

É preciso não agir,

não decidir,

não falar.

Ao ouvir um elogio,

basta negá-lo e se terá uma nódoa perfeita.

trocar a roupa e o carro

ao invés de viajar;

uma nódoa moderada.

Natais em famílias sem netos,

buzinas no parque,

palácios e bancos:

nódoas imperiais.

Óculos durante o beijo,

mãos semi-dadas,

classificados: nódoas suaves.

Você precisará de muita energia,

entretanto,

para destruir uma nódoa.

Comece por você mesmo:

vá juntando nódoas

para entregar ao Papai Noel.

Não deixe passar nenhuma.

Anote todas no seu caderninho.

Talvez no Ano Novo

você possa dançar.

Escuro

Arquivado em: Carlos Besen — miralume @ 12:06 am

A-
mor,

a

mor-
te

te

mi-
ra

por

bai-
xo

da

pál-
pe-
bra.

Maio 21, 2006

Régis Bonvicino: 3 poemas de “33 poemas”

Arquivado em: Poetas Convocados — miralume @ 11:44 pm

EM SUA LÁPIDE

tomou duzentos comprimidos
manchas vermelhas explodiram
em sua pele
simplesmente
desmanchou
o estômago e o fígado
esta não teve pena de si mesma
poderia estar escrito
em sua lápide

NÃO VOZ

não voz do não poeta
não homem
que não vai além.
não voz do não ser,
não nada
que não houve também.
não voz do não futuro,
presentes alguém?
não voz do não ouvido,
nãonão
ressoa ninguém.

SOMBRAS

um grito de pânico
corta o sono
e apaga a memória
da cena
( duas mulheres,
uma cerca de pontas,
chão seco,
numa casa de madeira
entre sombras )

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