
Junho 29, 2006
Junho 27, 2006
Conheço todas as reentrâncias desta casa. Conheço os lugares onde se esconde o pó, as falhas no carpete, os vidros. A mancha na mesa de madeira, o sulco na parede da cozinha, o furo para o quadro que não veio.
Conheço todos os brilhos desta casa. Na manhã, o movimento do sol que invade a cozinha, e como o quarto fica escuro. Conheço as sombras das persianas e os desenhos que seus intervalos formam no chão. Conheço a dança dessas luzes no assoalho do quarto, e como mudam quando a gente deita ao contrário na cama.
Conheço o calor do banheiro no verão.
Conheço os cheiros desta casa. O lixo da cozinha quando não é recolhido. O sabonete se espalhando no corredor, misturado com xampu, quando abrem a porta. O cheiro da televisão novinha. O mofo nos armários.
Conheço todos os seus movimentos. O ruído da chave na porta, depois os passos pesados quando ela entra na sala. O som da pasta sobre a mesa, e o suspiro que ela dá todos os dias quando abre a porta da geladeira. Conheço o farfalhar da jaqueta de couro no inverno, e a diferença entre as botas e as sandálias contra o assoalho.
Aquelas três batidas da escova sobre a pia depois de limpar os dentes.
Abrir e fechar a porta do guarda-roupa.
Empurrar a cadeira de encontro contra a mesa da cozinha.
Puxar a descarga.
Acender o fogão.
Tirar as sacolas dos lixos e depois deixá-las na porta para juntá-las na saída.
E ela sai.
Fico parado. Não há motivo de conhecer outras paisagens. Agora mesmo uma mosca pousou na minha janela.
Alheio
Todo som que escuto, se não sou quem o produz, é ruído. Ouvir o que não quero desembainha meus parafusos e faz com que eu me contemple nu, com a única paixão de odiar um novo idioleto. Tudo que é imposto põe uma postura imprecisa. Estar desatento do que falo de mim e atento no que não falam para mim concerta minhas vozes interiores num único ruído. É quando meu coral desafinado resolve sua pobre cantiga pela desistência de ser levado a um teatro clandestino apenas para ouvir. E se só me entendo no meu vozerio: o som do alheio é um ruído que me torna rouco, que me corrói. O som do alheio não me confunde: me funde no alheio. O que em mim escuta, não de mim: me anula.
Quando deixo de me ouvir, ligo meus ruídos: o rádio fora de estação, a televisão na intensidade da surdez e sintonizada no canal de estrelas cinzas e fantasmas ocasionais. Então todo ruído constante que assobio com as mãos ou que sussurro com o corpo soa como uma bibliotecária com o dedo indicador nos lábios. Toda monotonia tem um sopro e um pulmão incansáveis. Ativar minha autonomia de som, minha uniformidade de ruído, é pedir silêncio para mim mesmo. Quer dizer: reprimo a sinfonia autoritária do mundo e me ponho com toda a autoridade em me desentender. Mas se uma das vozes se levanta a ponto de ficar ecoando uma verdade, a ponto de fechar os olhos para emudecer aquilo em que me faço acreditar, a ponto de calar a boca do meu falatório convulso, então é indiferente se desligo os aparelhos ou se prossigo o ruído. Acreditando na persuasão de uma voz, eu me alheio e, ao me fundir em mim, eu me confundo. O que em mim fala, de tão convicto: me anula.
Junho 25, 2006
Virna Teixeira
Poemas de seu primeiro livro, Visita, editado em 2000 pela 7 Letras. Os quatro primeiros poemas abaixo integram a sua primeira parte, que leva o título da obra, e os três últimos, a segunda, denominada "Percursos".
…
Para saber mais sobre a poeta, nada melhor do que visitar os seus excelentes blogues: Papel de Rascunho e Los excessivos, este em parceira com Jair Cortés. Não se pode deixar de conferir também a sua coluna na Cronópios.
DORSO
Revestir a nudez
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primeira palavra:
toque.
…
Sílabas
desentendem
o silêncio.
UMA TARDE DE MAIO
cozinha
pedaços de manga
entre os dedos
risos
a vida
polpa
doce e
gelada.
Junho 23, 2006
Inexistir
Inexistir é uma tarefa árdua. Todos os dias deve se tecer um pouco de sua trama. Hilário perceber que ainda alguns poucos me acreditam. Pobres. Fico rindo de minha própria dor e sequer percebem. Não tenho capacidade nenhuma. Minha beleza é uma miragem. Debaixo dessa pele, escondo uma personagem nua, de vida amorfa. Tudo o que possuo e toco, estrago. Nada me basta. Tudo me sufoca. A vida me cansa. Minha imagem me afoga. Não sei ainda porque resisto. Consegui criar um lindo monstro do qual muito me orgulho. Ele cresceu e agora me abraça forte, cada vez mais forte. Me beija e me sussurra doces palavras e tenta presentear-me uma última chance de felicidade. Ainda reluto. Mas esses últimos dias têm sido cruéis. As mentiras revolvem-se debaixo dos tapetes. Clamam a retirada das máscaras. Eu venho pensando em ceder. Ando já sem forças. Penso em dar-lhes a devida razão. Ranjo os dentes. Tenho insônia. Mataria por pura inveja. Nada que faço, faço bem. De todas as coisas, tenho apenas a metade. Inteiras me doem e me custam por demasiado caras. Os olhares só me fazem bem se me desejam. As palavras só me soam legíveis se me elogiam. Ninguém é bom o bastante. Nada é sincero. Nenhum momento me parece tocante. Coisas belas cansam-me ao enjôo. Talvez eu realmente o ame, sim meu monstro, talvez. Apesar de ter a certeza de que nenhum amor seria capaz de salvar-me. Agora tudo isso pouco me importa. Então sua faca cruzou o meu corpo várias vezes e de nenhuma delas fui capaz de defender-me. Perdi todo o sangue que ainda insistia em correr rápido com aquela nojenta voracidade de vida. Aceitei com paciência e gozo o presente: minha inexistência adquirida.
Sou terra da seca no quando da chuva
sou barro que espuma na crosta mais quente
a vida e o cio mineral da semente
o chão e o retrato do céu que se move.
Barulho da bolha brotando
tensão que dissolve
e lama que seca
eco e borbulho
silêncio da seca no quando da chuva.
Sou sempre alterado
e definitivo,
não sou de contrastes; meu nome é fusão
eu venho da luta
mas fui seduzido
meu nome é inundado torrão
Já fui mineral metálico, fui lâmina
hoje sou orgânico
sou bruma brotando de dentro do barro
A minha explosão é também meu afago.
Junho 21, 2006
Do silêncio
Silêncio que o silêncio guarda
na conversa das lâmpadas
coisas fora da tomada
defeitos corrigidos
no grito que trocou de voz
sem dar o grito
silêncio que o silêncio guarda
absolvido
que é inteiro
que respira
exala cheiro
O silêncio completo.
O silêncio surdo das comunicações telepáticas.
O silêncio transido dos mortos.
Nenhum som, nenhum prurido.
O silêncio dos papéis em branco,
Das cédulas guardadas na gaveta,
Das meias de nylon, das meias-calças, dos sutiãs apertados sob a blusa.
O silêncio do quarto de dormir da avó que morreu.
O silêncio dos filhos que partiram,
E que não voltem.
O silêncio das mobílias, dos depósitos.
Todas as portas e janelas fechadas.
Nenhum aparelho ligado.
Nenhum telefone.
Nenhum radar, nenhum cão.
O silêncio completo a ponto de ouvir
As lâmpadas elétricas.
Junho 19, 2006
Estreito
À espreita, viajo em torno de naturezas mortas, sou todo-olhos para a paralisia, a língua travada entre os dentes e o céu da boca. Nada é tão vivo quanto o corpo do gelo, quanto descontrolar-se pelas beiradas. Ter um corpo novo a cada instante é sofrer o medo de que o sol atinja o centro: e se eu não for tão duro? Mas e se eu não for nem mesmo água provisória? À espreita, eu me obedeço: evito os açúcares, detesto a tinta da carne (também sua esponja amarelada), escovo os dentes, até despenteio: presto atenção em mim. Daí já não sei se deserto ou plano alto: quando nada sei, ainda sei páramo. À espreita, sou natureza morta.
À espreita, leio-me nas entrelinhas, mas não me contento. Cuidadoso, apago as linhas forjadas a lápis, procuro a vergonha de ter escrito o que não sei: e quando acho, não compreendo. Àespreita, sem desistir de mim mesmo, assalto um livro, encaro o canto claro da parede do quarto, sem janela. Ao ler, aguço: e só escuto dos livros o que eu esperaria ouvir da minha própria boca, impronunciável.
À espreita, morro por natureza. Pois se à espreita eu me ponho àescuta, eu automaticamente me calo, ofendido. Assim: o silêncio não me confessa, se eu confesso silêncio. Profundamente: não sei como trair o que confidencio, não sei me denunciar. À espreita, espero, invento culpas: é que sóme redimo por invenção. Depois me desculpo. À espreita, mesmo imóvel de mim, derreto; e embora a língua siga cavoucando, permaneço duro como um dente.
Eduardo Lacerda
Eduardo Lacerda: Poeta, graduando em Letras pela USP, Editou a Revista Literária Metamorfose, e edita o jornal de Literatura Contemporânea O Casulo. Atualmente trabalha como assistente de produção e coordenação cultural na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, coordena o núcleo São Paulo do Projeto Identidade www.projetoidentidade.org e é editor da Patuá Editorial, especializada em livros artesanais. Estes poemas integram o livro “Outro dia de Folia”, em preparação.
Desistência
Como à cama há pouco tempo
nos olhávamos em silêncio
hoje, nossos ossos, esqueletos
encaram-se em paralelos.
Comungados da mesma hóstia
repartida e azeda / dois exércitos
negros, iguais, porém divididos
por um mesmo tabuleiro /
: o ódio
Encarnando-se por este alimento
toda parte de um corpo
tanta carne sobre ossos
que é a vida quem nos indaga:
ainda haverá sangue?
/ a tristeza é que
na vida não se pode
como no jogo
o roque. /
Deus Ex-Machina
Para Rogério Fernandes
Pouco me importa que a chuva me molhe
se estou à calçada.
Mas se estou à calçada
(a um passo deste fluxo,
que me separa do outro
lado, dessa enxurrada
que é de lama, mistura
de água e desta gente
de barro)
é por que eu não misturo.
E, se por descuido,
um Deus ex machina,
por simples desvio
do buraco e da lombada
alterar o meu destino,
eu sigo em frente, parado.
Pois ainda que grite:
fiho-da-puta!
ao súdito sem culpa
nada secará a água
que
não veio da chuva.