Miralume.

Julho 30, 2006

Maurício Chemello

Arquivado em: Poetas Convocados — miralume @ 6:12 pm

Maurício Chemello é mestrando em Teoria da Literatura pela PUCRS, onde trabalha com Luis Antônio de Assis Brasil e é aluno de Charles Kiefer. Fora do mestrado, cursa a Oficina de Criação Literária ministrada por Caio Riter.

A poesia de Maurício não tem relações com chatas tradições, é prosa-poética, conversa-pensamento, filosofia. Os poemas aqui apresentados fazem parte do livro Sete versos partidos.

Improvável redenção 

Em algum lugar deserto ou mar eu estarei bem como nunca estive. Algum dia ano ou verão eu serei feliz como um bobo vive. Sempre chamei Jesus meu amigo, sou um anjo caído? e o que recebo em troca? Um pedaço do céu suprirá meus caprichos? Eu nunca tive dinheiro suficiente para comprar um espaço no mundo, não preciso nem quero aprendi a me negar pela piedade. Sonhei com muitíssimo esmero até não esperar mais seu paraíso, aceno sorridente para poder voltar pelas costas 

Todos os dias semanas e rotações solares eu chamo a mim mesmo de amigo fiel. Eu ascenderei em algum lugar voarei novamente eu serei feliz e como serei… Algum dia século ou passado eu serei meu, um belo almoço da terra

 Algumas vezes você acredita em Deuses pais mas não existem milagres mais. Somos infernos particulares? Irrigados pelo nosso próprio suor? Mantendo as chamas, cegos da boa saúde, caminhando crescendo e respirando, doentes, atrás de algo que deveria estar lá… 

Todos nós somos apenas bolhas na água, estória

nós vivemos, só vivemos

nós morremos, só morremos,

é tudo triste belo,

 ilusório 

Do amor 

Um toque em belo refrão com êxito de escravidão e o incansável desejado, feito o tempo de iniciação.

Do amor tudo o que sei é que ao me declarar me presenteei e ao me entregar não mais voltei e ao me saciar…

Ao me saciar saberei que morto já estava antes de tudo iniciar, pois quem ama não sacia e o amor é um vício e é tão curta a vida.

  … eu jejuei 

… eu jejuei por quarenta dias artisticamente enganando a fome junto de Kafka; mas também desconversei meus amigos e cantei o homem comum ao lado de André Gide; às muitas peripécias e desvios dos deuses sobrevivi juntamente com Ulisses para poder retornar ao meu legítimo reino; pus meus olhos ao lado dos de Édipo e não neguei minha trágica moira; experimentei o “soma” para suportar a realidade vigente tanto quanto a de Huxley; desci ao inferno observando espreitamente Virgílio conduzir Dante; arrependi-me de jogar mas à roleta viciei-me e desperdicei um amor de Dostoyévski; viajei no porta-malas de um ensandecido conversível dirigido impunemente por um certo Neal Cassidy; adiei a desgraça dos homens ao ouvir a última fala de Cristo na sua máxima obra; torci por Ursus contra o touro imperial de César; alimentei-me por muito tempo de cebolas assadas e diverti-me muito dançando a vida com Zorba; por fim presenciei a loucura explícita no salto mortal de um personagem de areia do assustador Hoffman… mas há mais, muito mais para se lembrar.

…como Camus eu me perdi nas areias da praia; sorri para os inimigos e previ boa sorte candidamente ao lado de Voltaire; cacei porcos numa ilha de crianças do premiado Golding; apreciei o balé do ponto de vista do medo de um aneurisma com Loyla; sofri em busca do dinheiro útil à família numa Porto Alegre Machadiana de Dyonélio; Retornei ao mundo dos vivos para reclamar meus direitos conforme um incidente de Veríssimo me permitiu; combati moinhos e discordei da visão simples do nobre Sancho ao tentar modificar as decisões do mais nobre dos homens – Quixote –, contei com a vingança e sangrei com Prometeu; acariciei o gato preto de Poe; assisti ao circo da mãe dos monstros de Maupassant; morri por amor a Goethe;embebedei-me em todos os banquetes dos quais Platão apenas ouviu falar, e como Sócrates apenas sei que nada sei; cantei abraçado a Rimbaud contra tudo e todos; adormeci bêbado e assustado ao lado das falas de Álvares de Azevedo no Brasil e na França dormi com Baudelaire. 

   

Julho 29, 2006

Visitas

Arquivado em: Carla Laidens — miralume @ 5:57 pm

Escondidas no sótão

minhas memórias retornam

a brindar-me o mofo

de uma existência abandonada.

Conformada as recebo

 as alimento

as mantenho guardadas.

Há muito que escolhi

apenas estar no mundo.

A vida foi uma visita perigosa. 

Julho 28, 2006

a Amilcar de Castro

Arquivado em: Lorenzo Ribas — miralume @ 2:58 pm

Amilcar conserva

o traço do grito

pousado no corte

aéreo e restrito.

 

Amilcar enterra

nas dobras do ferro

E o peso sussurra

Seu ato suspenso

 

O drama figura

A forja do tempo

 

único gesto

vôo esgotado

determinado

ao desprendimento.

Arquivado em: Diego Petrarca — miralume @ 1:53 am

Instante certeiro

       a flor

  do sono

    brota

do travesseiro

Arquivado em: Telma Scherer — miralume @ 1:47 am

Início sem contexto

fila de supermercado

homem na lua

mulher na espera

paz na desordem

da última guerra

aumento de todos

os mínimos salários

lançamento de foguetes

para o teu aniversário

Imundo, mundo

Arquivado em: Carlos Besen — miralume @ 1:46 am

I

Deixo minha casa tão suja,
tão dominada pelo pó de mim orvalhando,
que eu, por mais que sujo:
me sinto limpo.

Depois, deixo minha casa tão limpa,
tão recendida a pinho e eucalipto, a floral e lavanda,
que eu, por mais que limpo:
me sinto sujo.

II

Quando deságuo perfumes à flor da pele,
as portas fazem esquina com a rua,
desdobrando, como uma língua, as cadeiras de praia,
que são as da sala.

Bem odorado porque desodorado,
acesso jardins sem chamar a atenção das roseiras.

III

A grama já é mar.

IV

Mas quando soergo os braços fatigados como para uma cruz,
varrendo num longo espreguiçar os lamentos do corpo,
as janelas enferrujam os músculos das dobradiças,
jamais a lingüeta rígida da fechadura.

Quer porque gasto, quer porque economizo: sem desodorante,
nenhuma ginástica alarga os pulmões da casa,
e só me tonifico para mim mesmo, para nada.

V

Solto como um bicho, eu me enquadro,
como se usasse óculos exclusivamente para dissipar o foco.
Encarcerado nos bigodes da ratoeira,
eu me liberto, como se, enorme, pudesse correr,
como se, enorme, pudesse esconder-me.

VI

Sou como não sou e como não estou.
E se ser é sentir, até me dou razão,
de forma a entender depois
o que nego e o que afirmo agora.

Ser é eu me compreender quando puder.
Digo, tudo o que concluo: inutilizo.

Sou provisório como um corpo limpo.

Julho 21, 2006

Arquivado em: Lorenzo Ribas — miralume @ 6:52 pm

Henri Cartier-Bresson, New York, 1947   

Teu companheiro não tem perguntas

Nem quer mais nada de ti

O pouco calor que reparte

basta por ora

nos tempos de crise.

 

Teu amigo, bandido adotado,

talvez reconheça em teus olhos

Algo que treme de medo das gentes

E evita os domingos de parque e evita

os domingos de sol.

São tantas imagens! Tantas

histórias, tantos perfumes por algumas moedas!

Rodas que giram, cores

que nascem, a grama verde

para os corpos úmidos…

Tantos milênios fazendo cidades

-umas por cima das outras-

e não te previram? Por certo

nasceste errado.

 

As latas de lixo dos becos

A sombra dos prédios, enormes

grades, cem mil janelas

E em meio a tantas vozes que de longe chegam

rastejando na sarjeta,

perdidas,

com cheiro de poeira e pedra

E já não vendem não compram não rezam não falam

não choram nem riem não lamentam nada;

Sem nenhum consolo

tu

conversas com um gato.

  

Este fiapo à tua frente

ou pequeno trapo quente

ou acalanto demente

ou sonho diamante

no suor carvão da noite

na cidade terra morta

Gente, menos que gente.

Que importa?

 

E por trás do prédio

Numa placa

Lia-se a palavra

companhia.

Julho 19, 2006

Algum retrato

Arquivado em: Diego Petrarca — miralume @ 2:13 pm

O retrato que não vejo

nas telas de Picasso

desenha-se mais sólido

no chá de ervas que preparo

de manhã

na habilidade de antecipar

a ordem das coisas

pela casa

ao dobrar as roupas com gesto

de arte final

e mesmo abreviar a chance

de uma vontade tardia

aos cuidados de algum filho

o retrato que não vejo

reprise da vida real

 

 

Julho 17, 2006

Fábula descartável

Arquivado em: Carlos Besen — miralume @ 11:38 pm

O mundo começa quando vejo um seio suspenso numa árvore distante a menos de um trovoar de estômago. Porque chupo o suco e não me contento de delícia: mordo o sumo. Porque contorno a polpa e não estaciono o desejo: devoro o bico e as sementes. E se me semeio, eu mesmo devo me colher.

O tempo começa com os desbravamentos do corpo. É quando eu experimento: eu toco, eu acaricio, eu bolino, eu mijo, eu cago, eu cuspo, eu lambuzo, eu enjôo, eu vocifero, eu choro, eu rio; mas, de repente, sem mais nem menos: minhas experiências me corrompem. Então descobrir-me é como penetrar a região do proibido. Contudo, eu me permito: faço com que meu corpo afronte o jardim de eternidade em que fora exposto como num zoológico. Permitir-me o proibido é inventar a invenção.

A consciência começa com a intensidade do corpo, com o inominável dos seus desvarios. Logo o inominável recebe nomes, e a consciência inventa que conhece. Eu penso, eu domino, eu corto raízes. Minha fábrica de conceitos me separa do mundo. Ao conhecer, afasto aquilo que eu mesmo quisera presente. Apago o que conheço, e ainda conheço. De olhos bem fechados, o corpo é puro. Eu me divido.

A dívida começa quando já não consigo me devolver. Conheço a maçã, a árvore, o terreno, o corpo: mas quando me conheço, o que conheço? Se me rabisco, já não permaneço. Não me identifico entre os nomes. Quando penso saber de mim, eu me fraturo.

Deus começa no corpo, mas só me dou conta quando me exaspero na linguagem. É pensando que quero recuperar a sandice do corpo: só um deus pode ser assim tão são. Qualquer um pode ver: eu me ponho em deus para pensar o que poderia ser. Divinizar é minha nostalgia, meu mel sem mão.

Recomeço quando resolvo: se me semeio, eu mesmo devo me colher. E se me colho, eu mesmo devo me escolher. Resolvo minha linguagem: eu me alfabetizo em todas as direções, na delícia incontida de cada poro. Eu me explico com loucura: eu me humanizo sem ênfase divina.

Julho 14, 2006

Versos partidos

Arquivado em: Carla Laidens — miralume @ 6:26 pm

Desassossego

Marcas na carne

Pedaços arrancados

Sangue a escorrer

dos olhos dos lábios do coração

Vivo e morro

todo o tempo 

Tuas cicatrizes em mim

meus pedaços em ti

Condenados

somos a estarmos sempre

mesmo não estando 

Tuas marcas me ferem

me cortam

me constroem

uma outra

um eu todo meu

pedaço também teu 

Minha carne mordida

mastigada digerida

torna-te um outro

um eu todo teu

pedaço também meu 

Nada somos

nada temos

entanto sempre seremos

partes de um mesmo espelho

criador criatura

criatura criadora

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