Maurício Chemello é mestrando em Teoria da Literatura pela PUCRS, onde trabalha com Luis Antônio de Assis Brasil e é aluno de Charles Kiefer. Fora do mestrado, cursa a Oficina de Criação Literária ministrada por Caio Riter.
A poesia de Maurício não tem relações com chatas tradições, é prosa-poética, conversa-pensamento, filosofia. Os poemas aqui apresentados fazem parte do livro Sete versos partidos.
Improvável redenção
Em algum lugar deserto ou mar eu estarei bem como nunca estive. Algum dia ano ou verão eu serei feliz como um bobo vive. Sempre chamei Jesus meu amigo, sou um anjo caído? e o que recebo em troca? Um pedaço do céu suprirá meus caprichos? Eu nunca tive dinheiro suficiente para comprar um espaço no mundo, não preciso nem quero aprendi a me negar pela piedade. Sonhei com muitíssimo esmero até não esperar mais seu paraíso, aceno sorridente para poder voltar pelas costas
Todos os dias semanas e rotações solares eu chamo a mim mesmo de amigo fiel. Eu ascenderei em algum lugar voarei novamente eu serei feliz e como serei… Algum dia século ou passado eu serei meu, um belo almoço da terra
Algumas vezes você acredita em Deuses pais mas não existem milagres mais. Somos infernos particulares? Irrigados pelo nosso próprio suor? Mantendo as chamas, cegos da boa saúde, caminhando crescendo e respirando, doentes, atrás de algo que deveria estar lá…
Todos nós somos apenas bolhas na água, estória
nós vivemos, só vivemos
nós morremos, só morremos,
é tudo triste belo,
ilusório
Do amor
Um toque em belo refrão com êxito de escravidão e o incansável desejado, feito o tempo de iniciação.
Do amor tudo o que sei é que ao me declarar me presenteei e ao me entregar não mais voltei e ao me saciar…
Ao me saciar saberei que morto já estava antes de tudo iniciar, pois quem ama não sacia e o amor é um vício e é tão curta a vida.
… eu jejuei
… eu jejuei por quarenta dias artisticamente enganando a fome junto de Kafka; mas também desconversei meus amigos e cantei o homem comum ao lado de André Gide; às muitas peripécias e desvios dos deuses sobrevivi juntamente com Ulisses para poder retornar ao meu legítimo reino; pus meus olhos ao lado dos de Édipo e não neguei minha trágica moira; experimentei o “soma” para suportar a realidade vigente tanto quanto a de Huxley; desci ao inferno observando espreitamente Virgílio conduzir Dante; arrependi-me de jogar mas à roleta viciei-me e desperdicei um amor de Dostoyévski; viajei no porta-malas de um ensandecido conversível dirigido impunemente por um certo Neal Cassidy; adiei a desgraça dos homens ao ouvir a última fala de Cristo na sua máxima obra; torci por Ursus contra o touro imperial de César; alimentei-me por muito tempo de cebolas assadas e diverti-me muito dançando a vida com Zorba; por fim presenciei a loucura explícita no salto mortal de um personagem de areia do assustador Hoffman… mas há mais, muito mais para se lembrar.
…como Camus eu me perdi nas areias da praia; sorri para os inimigos e previ boa sorte candidamente ao lado de Voltaire; cacei porcos numa ilha de crianças do premiado Golding; apreciei o balé do ponto de vista do medo de um aneurisma com Loyla; sofri em busca do dinheiro útil à família numa Porto Alegre Machadiana de Dyonélio; Retornei ao mundo dos vivos para reclamar meus direitos conforme um incidente de Veríssimo me permitiu; combati moinhos e discordei da visão simples do nobre Sancho ao tentar modificar as decisões do mais nobre dos homens – Quixote –, contei com a vingança e sangrei com Prometeu; acariciei o gato preto de Poe; assisti ao circo da mãe dos monstros de Maupassant; morri por amor a Goethe;embebedei-me em todos os banquetes dos quais Platão apenas ouviu falar, e como Sócrates apenas sei que nada sei; cantei abraçado a Rimbaud contra tudo e todos; adormeci bêbado e assustado ao lado das falas de Álvares de Azevedo no Brasil e na França dormi com Baudelaire.