Recuso descobertas
é muito mais
difícil
desaprender as coisas
Meu amor está sóbrio agora.
Olha fixamente a xícara de café.
Não quero dividi-lo nem mesmo com essa música.
As horas passam tranqüilas
pois me prendi no quarto
arrumei cem vezes a cama
e um corpo estendido me abraça,
sólido.
Os dias
mais curtos
que um braço:
ao fazer
as mãos,
deixo um dedo
para o rosto,uma ilha
para a água.
amor do mar:
a maré
a maré
alta
arrasta
incauta
a maré
tormenta
arrebenta
violenta
a maré
talante
constante
amante
a maré
decesso
processo
retrocesso
Passou pelas cabeças um sopro
e veio a tempestade.
Relógios voavam em redemoinhos
As mães abraçavam os filhos no colo
as crianças choravam
os velhos tremiam
E os olhos saltavam para fora das órbitas.
Não houve nuvens, mas algo
abstrato que inflou a cidade
deixando o céu carregado.
As aves voavam abaixo dos gritos
E as plantas longe abanavam
O povo corria nas ruas
As casas ficaram abertas e as perguntas
sem resposta.
Em ondas subia a cidade
as raízes, os alicerces, os pavimentos…
Quando acordei com um grito:
toda a casa estava em silêncio
e meu filho dormia em seu berço.
Por mais que a tarde
insista em abrir os braços
a pintura das paredes
e rigidez das portas
me recebem em gestos
de antecipação
Lutavas com o rio. Eu cortava verbos para que tentasses a língua no outro lado do drama. Eu borbulhava os sentidos do acontecido para que chegasses por ti a implodir o gelo da expressão. Tua face atingia a indiferença, pupila no escuro. Eu não podia abrir uma vala em teu rosto. Teu choro: água murmurando o sumo da rocha. Acortinado, teu riso de leite era de pedra. Eu te perdi para o musgo.
A tarde inundou os cálices
Poças ficaram suspensas
nas copas.
A água na forma de uma carícia
livre, caída, deixada;
Tão humano eu não sabia
que humano eu era máquina.
O chão foi aberto em percursos,
A água deitada lavou os detritos
em fortes torrentes. Não me pergunte:
Eu já sabia, mas não podia.
Barulho de pânico e pressa alargava nas ruas
no entorno das rotas
E a água tocava nas flores melífluas
notas, nas últimas
águas
Enquanto gigantes sucumbem ao som de trombetas
E insetos eclodem depois das enchentes,
milhares, milhões, iguais e unânimes.
O sol porém secará os relógios
a tempo. Sabíamos:
em paz veio o dia.
Um homem trabalha,
Um cactos cresce,
Um lagarto espera.
A tarde que cai sobre nós talvez diga:
- distâncias às vezes tornam-se água.
Apanho o pouco que posso
e bebo nas mãos
que a sede sinto é sozinha.
As flores das copas, ainda cheias,
gotejavam, rubras, suicidas.
A residência
onde peço demissão
não explica
a violência dos automóveis
contra os ouvidos
de manhã cedo