Miralume.

Setembro 22, 2006

Matar faz-se na calada

Arquivado em: Carla Laidens — miralume @ 4:00 pm

como a criança
tomada em seu mais profundo medo
chora a alegria da vidraça quebrada
assisto teu derradeiro fim

definhas perante meus olhos
e eu nada posso fazer senão esperar alívio
depois que te fores
nunca mais te precisarei chorar
não te sentirei saudades

já no caminho
terás percebido
que tão simples como é te amar
é te matar
meu amor…

te sinto partir
e como me são tristes as despedidas…

Setembro 11, 2006

Sardas

Arquivado em: Carla Laidens — miralume @ 5:11 pm

Pelos caminhos em que passo
as sardas ficam

Uma a uma as deixo
em lugares
pessoas olhos e bocas

Um rastro
de quem quer ficar
um pouco em cada lugar
um pouco em cada ser

São as únicas coisas que de mim permanecem
do resto
nada há

Setembro 8, 2006

Moldura

Arquivado em: Diego Petrarca — miralume @ 12:50 am

 

Sétima madrugada sem dizer nada. Bandeira ilegível, roupa daquele dia. Flutuava noutra direção sem espanto, quando, devagar, o esforço pra silenciar. Ao menos os quadros tortos teimavam, intactos na parede.

Setembro 6, 2006

AI XXI

Arquivado em: Telma Scherer — miralume @ 4:12 pm

Ruído constante,
Decreto das almas:

– A partir de hoje vige
a ditadura da felicidade.

Carros que passam, buzinam.

– Os que não sorrirem
23 horas por dia
serão caçados e torturados.

A cidade amanhece na penumbra.

Três viajantes no vagão:
1.Uma menina magra, blusa rasgada, marca no cangote;
2.Um garoto pobre, dormindo;
3.A mãe do garoto, sacola plástica, cabelos cinza.

– Eliminaremos todos os infelizes
com analgésicos, espermicidas, desinfetantes
e construiremos centros de reabilitação
com lojas
estacionamento
e florestas artificiais.

Adivinhar o idioma

Arquivado em: Carlos Besen — miralume @ 1:24 pm

Os filhos de minha vó têm a língua seca de tinta, mas a crueldade de suas filhas não hesita: manda cartas que ela não pode ler. E não são missivas estrangeiras: minha vó vive cada alfabeto como idioma de distância. Ela coleciona cartas como se montasse um álbum de figurinhas, um baralho espanhol. À tarde, depois da sesta, minha vó as abre e as distribui sobre a mesinha do quarto. O buraco da fechadura é estreito para escutar o que ela balbucia para os papéis, para ler a sintaxe dos lábios. Privado da janela da boca, ainda espio indiscreto: cartomante, minha vó perpassa com o dedo o mero presente no relevo desenhado da caligrafia.

Setembro 4, 2006

Poema

Arquivado em: Carla Laidens — miralume @ 1:18 am

palavras
escondidas
disformes
formas

nascem
pedras
polidas
colhem
vida

deslizam
pelo tempo
discorrem

morrem
carnudos
frutos
abocanhados

ressuscitam
nas entranhas
correm
veias
cérebro
coração

digeridas
escapam
partículas
sementes
ao vento

Arquivado em: Lorenzo Ribas — miralume @ 1:16 am

Como se pássaro fosse

despontando no mergulho

do real da liberdade;

E com classe, feito ave

a romper o ar pesado

Como fosse sonora coisa,

Sim, como gritar pudesse;

  

Um pano desbotado

planou por sobre os prédios  

E viu-se na cidade,  

talvez reconhecido: 

Coisa real e numérica,

larga, monótona,

que, tendo escapado,

t a m b é m e r a c i n z a.

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