Poesia demora, poesia é feita de silêncio. Talvez por isso esses espaços de vazio e nossas postagens cada vez mais raras. Para escrever é preciso às vezes respirar profundamente sem canto de olho para os outdoors, um minutinho de calma entre a turbulência dos ônibus, quietude no alvoroço da casa, solidão. Poema está sempre cobrando maturações e explicações. Poema pede que a gente faça as malas para vez ou outra ir olhar o sol. Poema livra das obrigações de Pis e Cpf. Não tem como arrancá-lo do umbigo sem muita paciência.
Respire com a gente, leitor. O Quintana escreveu algo mais ou menos assim: “Quem faz um poema abre uma janela./Respira, tu que estás numa cela / abafada/ esse ar que entra por ela. / É por isso que os poemas têm ritmo, / para que possas, enfim, profundamente respirar // Quem faz um poema salva um afogado”.
Poema no blog tem que ser regado como poema em página premiada. É assim, sem abandono.
Desculpem-nos. Desculpemo-nos. Obrigada por respirarem com a gente.
Outubro 23, 2006
Sobre
Outubro 10, 2006
II – A plenitude
Tocaram-se. Em meio ao deserto de outrora criou-se o mundo. O verbo se fez carne amalgamada em um só corpo. Cada beijo era um gole sorvido de um vinho jamais experimentado. Naqueles tempos fazia-se música nos cantos mais recônditos ecoar pelos ares. Os dias eram mais claros. Os perfumes pulsantes. Salivas e corpos misturavam-se. O tempo parecia uma alcova sem fim. O chão começara a tornar-se firme e por sobre ele criou-se o mais belo castelo de que já se teve notícia. O mundo era-lhes por demasiado pequeno. Vide: o amor existia e, em seu nome, selaram-se promessas.
Outubro 2, 2006
I- O encanto
Encontraram-se. Fez-se caminho de fogo. Não se sabiam iguais e, ao se perceberem espelho, susto. Tentaram repelir-se, fazia-se tarde. Eram tempos de beleza e dor, de impossibilidade de retorno. Seguiram o ciclo maldito. Mostraram-se fortes sem conhecer o que de frágil neles habitava. Encontraram-se desgovernados, juntos em um não-estar. Assim, na caminhada, foram a se desvelar num enredo ainda não escrito. Novelos enleados em um único fio, desenrolando-se no labirinto da existência. Teceram fugidias tramas de Penélope. A proposta era não concretizar a tapeçaria. Hoje, porém, vide, as Moiras cortaram o fio que os unia. Coube ao fadado sortilégio cumprir-se. O plano era maior, já não lhes pertencia. Como não pretendessem consultar oráculos, tampouco cegos profetas, seguiram o mapa de fios emaranhados em uma trama de poesia.