sede de vida
ânsia de vida
tanta vida
tonta vida
toda vida
sobrevida
havida
devida
ida
Dezembro 19, 2006
Percurso
Dezembro 6, 2006
V- O inominável
Partiram-se. A forma uma que havia dilacerou-se. Pedaços espalharam-se pelo piso da sala. A massa disforme que se criara desmanchava-se aos poucos e o que dali surgia era um não-ser. Não havia como agarrar o vazio daquele instante. Também os tijolos viram tranformar-se em areia, a escorrer feito líquido rápido e fremente pela ampulheta rompida. Um tempo perdido. Procuraram o amor, mas ele já havia se mudado há muito. Restaram apenas feridas expostas, fotos rasgadas, cartas sobre a mesa. Agora a verdade surgia: eram estranhos a dividir amargos gostos. Daqueles que iniciaram o mundo, sobraram apenas recordações. Eram outros. De tanto amor, haviam se consumido.
Novembro 21, 2006
IV – Prenúncio
Desesperaram-se. Clamaram socorro divino. Suplicavam lágrimas, porque a secura de seus olhos era apenas ficção. Haviam se enganado mais uma vez. Escutai, o amor andava doente e ninguém pode perceber. O cancro tomara conta de tudo! Nos olhos, as nuvens já haviam se dispersado. Agora, tomara força a tormenta e começava, na inquietude dos mares e dos ventos, a devastar a casinha e o jardim florido que haviam construído com tanto afeto. Como era belo, mas a poesia havia desmoronado, tijolo por tijolo, cada rima, cada verso. A ferida agora somente crescia. Virou monstro e devorava cada recanto por onde passava. Era necessário partir, mas o que ainda lhes preocupava era que não haviam aprendido a ouvir o ressonar solitário de seus passos pela estrada. Talvez se fossem pássaros, mas não houve mais o tempo falso das transmutações.
Novembro 1, 2006
III – A verdade
Calaram-se. Não era certo revelar verdades. Apenas contavam aquilo que lhes era permitido dizer. Naqueles tempos falava-se sobre o vento e vivia-se apenas de amor. Por debaixo do tapete florido escondiam-se grandes tempestades. O que lhes importava era não estragar a falsa estabilidade das coisas adquiridas. Fora tão difícil chegar ao amor. Melhor sacrificar as vontades. Desejaram veementemente a vida do outro para si. O desejo tomou forma. A forma tornou-se posse. O amor estava sitiado. Vigiavam-se os passos. Na extensão do castelo criaram cárcere. Coluna por coluna dispostas docemente. Foram tempos de estar-se preso por vontade.
Outubro 10, 2006
II – A plenitude
Tocaram-se. Em meio ao deserto de outrora criou-se o mundo. O verbo se fez carne amalgamada em um só corpo. Cada beijo era um gole sorvido de um vinho jamais experimentado. Naqueles tempos fazia-se música nos cantos mais recônditos ecoar pelos ares. Os dias eram mais claros. Os perfumes pulsantes. Salivas e corpos misturavam-se. O tempo parecia uma alcova sem fim. O chão começara a tornar-se firme e por sobre ele criou-se o mais belo castelo de que já se teve notícia. O mundo era-lhes por demasiado pequeno. Vide: o amor existia e, em seu nome, selaram-se promessas.
Outubro 2, 2006
I- O encanto
Encontraram-se. Fez-se caminho de fogo. Não se sabiam iguais e, ao se perceberem espelho, susto. Tentaram repelir-se, fazia-se tarde. Eram tempos de beleza e dor, de impossibilidade de retorno. Seguiram o ciclo maldito. Mostraram-se fortes sem conhecer o que de frágil neles habitava. Encontraram-se desgovernados, juntos em um não-estar. Assim, na caminhada, foram a se desvelar num enredo ainda não escrito. Novelos enleados em um único fio, desenrolando-se no labirinto da existência. Teceram fugidias tramas de Penélope. A proposta era não concretizar a tapeçaria. Hoje, porém, vide, as Moiras cortaram o fio que os unia. Coube ao fadado sortilégio cumprir-se. O plano era maior, já não lhes pertencia. Como não pretendessem consultar oráculos, tampouco cegos profetas, seguiram o mapa de fios emaranhados em uma trama de poesia.
Setembro 22, 2006
Matar faz-se na calada
como a criança
tomada em seu mais profundo medo
chora a alegria da vidraça quebrada
assisto teu derradeiro fim
definhas perante meus olhos
e eu nada posso fazer senão esperar alívio
depois que te fores
nunca mais te precisarei chorar
não te sentirei saudades
já no caminho
terás percebido
que tão simples como é te amar
é te matar
meu amor…
te sinto partir
e como me são tristes as despedidas…
Setembro 11, 2006
Sardas
Pelos caminhos em que passo
as sardas ficam
Uma a uma as deixo
em lugares
pessoas olhos e bocas
Um rastro
de quem quer ficar
um pouco em cada lugar
um pouco em cada ser
São as únicas coisas que de mim permanecem
do resto
nada há
Setembro 4, 2006
Poema
palavras
escondidas
disformes
formas
nascem
pedras
polidas
colhem
vida
deslizam
pelo tempo
discorrem
morrem
carnudos
frutos
abocanhados
ressuscitam
nas entranhas
correm
veias
cérebro
coração
digeridas
escapam
partículas
sementes
ao vento
Agosto 27, 2006
Segredos marinhos
amor do mar:
a maré
a maré
alta
arrasta
incauta
a maré
tormenta
arrebenta
violenta
a maré
talante
constante
amante
a maré
decesso
processo
retrocesso