Miralume.

Setembro 6, 2006

Adivinhar o idioma

Arquivado em: Carlos Besen — miralume @ 1:24 pm

Os filhos de minha vó têm a língua seca de tinta, mas a crueldade de suas filhas não hesita: manda cartas que ela não pode ler. E não são missivas estrangeiras: minha vó vive cada alfabeto como idioma de distância. Ela coleciona cartas como se montasse um álbum de figurinhas, um baralho espanhol. À tarde, depois da sesta, minha vó as abre e as distribui sobre a mesinha do quarto. O buraco da fechadura é estreito para escutar o que ela balbucia para os papéis, para ler a sintaxe dos lábios. Privado da janela da boca, ainda espio indiscreto: cartomante, minha vó perpassa com o dedo o mero presente no relevo desenhado da caligrafia.

Agosto 28, 2006

Água próxima, terra curta

Arquivado em: Carlos Besen — miralume @ 11:39 pm

Os dias
mais curtos
que um braço:

ao fazer
as mãos,

deixo um dedo
para o rosto,uma ilha
para a água.

Agosto 22, 2006

Lutar com a pedra

Arquivado em: Carlos Besen — miralume @ 1:30 am

Lutavas com o rio. Eu cortava verbos para que tentasses a língua no outro lado do drama. Eu borbulhava os sentidos do acontecido para que chegasses por ti a implodir o gelo da expressão. Tua face atingia a indiferença, pupila no escuro. Eu não podia abrir uma vala em teu rosto. Teu choro: água murmurando o sumo da rocha. Acortinado, teu riso de leite era de pedra. Eu te perdi para o musgo.

Agosto 16, 2006

Pisando no aquário

Arquivado em: Carlos Besen — miralume @ 2:52 am

Pisando como criança incauta,
o trem organiza a água.
Abrindo de luz a boca,
anda como riacho indiferente ao mar.
O trem ergue a crista
do assobio de metal,
é um galo que esqueceu o pátio
em que desperta apitando para o milho.
O trem marinho se move
como arcada dentária,
se dobra como isca à guisa.
José, João, Maria:

nós fisgamos o trem,
desjejum da manhã na cor do rio.

Há uma vergonha de vapor,
o trem fecha as portas para esconder

que tem café com céu
para prosseguir com fome.

O trem se isola como mão fechada,
anel de limbo.
  

Agosto 2, 2006

Caligrafia do avesso (fragmento)

Arquivado em: Carlos Besen — miralume @ 10:33 am


Minha biografia me faz em meu lugar.

Não sei ter uma árvore,
não sei plantar um livro,
não sei escrever um filho.

Meus gestos me refratam,
as folhas se vergam na rasura.

Julho 28, 2006

Imundo, mundo

Arquivado em: Carlos Besen — miralume @ 1:46 am

I

Deixo minha casa tão suja,
tão dominada pelo pó de mim orvalhando,
que eu, por mais que sujo:
me sinto limpo.

Depois, deixo minha casa tão limpa,
tão recendida a pinho e eucalipto, a floral e lavanda,
que eu, por mais que limpo:
me sinto sujo.

II

Quando deságuo perfumes à flor da pele,
as portas fazem esquina com a rua,
desdobrando, como uma língua, as cadeiras de praia,
que são as da sala.

Bem odorado porque desodorado,
acesso jardins sem chamar a atenção das roseiras.

III

A grama já é mar.

IV

Mas quando soergo os braços fatigados como para uma cruz,
varrendo num longo espreguiçar os lamentos do corpo,
as janelas enferrujam os músculos das dobradiças,
jamais a lingüeta rígida da fechadura.

Quer porque gasto, quer porque economizo: sem desodorante,
nenhuma ginástica alarga os pulmões da casa,
e só me tonifico para mim mesmo, para nada.

V

Solto como um bicho, eu me enquadro,
como se usasse óculos exclusivamente para dissipar o foco.
Encarcerado nos bigodes da ratoeira,
eu me liberto, como se, enorme, pudesse correr,
como se, enorme, pudesse esconder-me.

VI

Sou como não sou e como não estou.
E se ser é sentir, até me dou razão,
de forma a entender depois
o que nego e o que afirmo agora.

Ser é eu me compreender quando puder.
Digo, tudo o que concluo: inutilizo.

Sou provisório como um corpo limpo.

Julho 17, 2006

Fábula descartável

Arquivado em: Carlos Besen — miralume @ 11:38 pm

O mundo começa quando vejo um seio suspenso numa árvore distante a menos de um trovoar de estômago. Porque chupo o suco e não me contento de delícia: mordo o sumo. Porque contorno a polpa e não estaciono o desejo: devoro o bico e as sementes. E se me semeio, eu mesmo devo me colher.

O tempo começa com os desbravamentos do corpo. É quando eu experimento: eu toco, eu acaricio, eu bolino, eu mijo, eu cago, eu cuspo, eu lambuzo, eu enjôo, eu vocifero, eu choro, eu rio; mas, de repente, sem mais nem menos: minhas experiências me corrompem. Então descobrir-me é como penetrar a região do proibido. Contudo, eu me permito: faço com que meu corpo afronte o jardim de eternidade em que fora exposto como num zoológico. Permitir-me o proibido é inventar a invenção.

A consciência começa com a intensidade do corpo, com o inominável dos seus desvarios. Logo o inominável recebe nomes, e a consciência inventa que conhece. Eu penso, eu domino, eu corto raízes. Minha fábrica de conceitos me separa do mundo. Ao conhecer, afasto aquilo que eu mesmo quisera presente. Apago o que conheço, e ainda conheço. De olhos bem fechados, o corpo é puro. Eu me divido.

A dívida começa quando já não consigo me devolver. Conheço a maçã, a árvore, o terreno, o corpo: mas quando me conheço, o que conheço? Se me rabisco, já não permaneço. Não me identifico entre os nomes. Quando penso saber de mim, eu me fraturo.

Deus começa no corpo, mas só me dou conta quando me exaspero na linguagem. É pensando que quero recuperar a sandice do corpo: só um deus pode ser assim tão são. Qualquer um pode ver: eu me ponho em deus para pensar o que poderia ser. Divinizar é minha nostalgia, meu mel sem mão.

Recomeço quando resolvo: se me semeio, eu mesmo devo me colher. E se me colho, eu mesmo devo me escolher. Resolvo minha linguagem: eu me alfabetizo em todas as direções, na delícia incontida de cada poro. Eu me explico com loucura: eu me humanizo sem ênfase divina.

Julho 11, 2006

Centro

Arquivado em: Carlos Besen — miralume @ 12:01 am

O conjunto de tapetes cinzas estendidos das avenidas aos cumes dos prédios me solicita no centro da cidade. O ônibus não tolera meus apelos para maximizar o percurso de uma única passagem. Eu me aborreço diante do cobrador, que me constrange ao explicar com bigode noviço que o fim da linha é o fim da linha. Custo a entender seu aforismo prático: depois dos inícios, têm mais inícios, mas sempre um preço. A sujeira nos tapetes do centro da cidade não tarda a me mostrar o tamanho do desconforto de estar no centro da cidade. Se caio e me misturo aos farelos de pão e aos tocos de cigarro e aos panfletos, não faltam as gargalhadas com que os mendigos logo retornam a espiar seu próprio mundo com olho mágico. Se me levanto e me reponho e caminho como se nada pudesse ter acontecido com meus farrapos sujos, não demora para que meu esqueleto de salsichas seja prensado entre os pães de tantos ombros, e contudo demoro em digerir o sussurro das desculpas alojadas na maionese dos ouvidos. Se aceito pousar minha eterna figura maltrapilha na cegueira das fotografias 3 x 4, perco as asas da carteira, mas ganho o alpiste de me ver sem ter escolhido o ângulo. Permaneço o menino rechonchudo que só desvia os olhos do alto para escutar os estampidos de voz das ruas. Se vou à altura do dentista, sou aclamado pelos assovios de portaria ao fechar a cortina do elevador. Se o porteiro me pára, sei que meu rg se espalha em cifras clandestinas, em mapas do meu próprio acaso. Se ando sob a saia dos prédios, tanto pior sem o guarda-chuva e sem a capa: fantasmas pingam o gordo suor de janelas abertas ou fechadas, calçadas se dobram como sino e molham os sinos maleáveis da calça. Não chega a ser desperdício o gel gratuito nos cabelos, a inundação sem naufrágio nos sapatos. Não chega a dar vontade de correr os olhos depois as pernas, se um menino que vem mendigar me ensina um idioma estrangeiro, cujo alfabeto imita os nomes pardos das pastelarias dispostas lado a lado. Não chega a ser descaso, se, ao comer pastéis com o menino, eu ignoro a sinfonia dos gemidos do azeite ao esfriar e esquentar nas frigideiras elétricas. Não chega a ser coincidência: o centro da cidade é onde perco o centro, e me reconheço.

Julho 5, 2006

Arquivado em: Carlos Besen — miralume @ 5:01 pm

Uma vida,

uma pedra

tão próxima

mas

o receio de

se derramar

Junho 27, 2006

Alheio

Arquivado em: Carlos Besen — miralume @ 2:10 am

Todo som que escuto, se não sou quem o produz, é ruído. Ouvir o que não quero desembainha meus parafusos e faz com que eu me contemple nu, com a única paixão de odiar um novo idioleto. Tudo que é imposto põe uma postura imprecisa. Estar desatento do que falo de mim e atento no que não falam para mim concerta minhas vozes interiores num único ruído. É quando meu coral desafinado resolve sua pobre cantiga pela desistência de ser levado a um teatro clandestino apenas para ouvir. E se só me entendo no meu vozerio: o som do alheio é um ruído que me torna rouco, que me corrói. O som do alheio não me confunde: me funde no alheio. O que em mim escuta, não de mim: me anula.

Quando deixo de me ouvir, ligo meus ruídos: o rádio fora de estação, a televisão na intensidade da surdez e sintonizada no canal de estrelas cinzas e fantasmas ocasionais. Então todo ruído constante que assobio com as mãos ou que sussurro com o corpo soa como uma bibliotecária com o dedo indicador nos lábios. Toda monotonia tem um sopro e um pulmão incansáveis. Ativar minha autonomia de som, minha uniformidade de ruído, é pedir silêncio para mim mesmo. Quer dizer: reprimo a sinfonia autoritária do mundo e me ponho com toda a autoridade em me desentender. Mas se uma das vozes se levanta a ponto de ficar ecoando uma verdade, a ponto de fechar os olhos para emudecer aquilo em que me faço acreditar, a ponto de calar a boca do meu falatório convulso, então é indiferente se desligo os aparelhos ou se prossigo o ruído. Acreditando na persuasão de uma voz, eu me alheio e, ao me fundir em mim, eu me confundo. O que em mim fala, de tão convicto: me anula.

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