Miralume.

Setembro 4, 2006

Arquivado em: Lorenzo Ribas — miralume @ 1:16 am

Como se pássaro fosse

despontando no mergulho

do real da liberdade;

E com classe, feito ave

a romper o ar pesado

Como fosse sonora coisa,

Sim, como gritar pudesse;

  

Um pano desbotado

planou por sobre os prédios  

E viu-se na cidade,  

talvez reconhecido: 

Coisa real e numérica,

larga, monótona,

que, tendo escapado,

t a m b é m e r a c i n z a.

Agosto 26, 2006

Arquivado em: Lorenzo Ribas — miralume @ 12:57 am

Passou pelas cabeças um sopro

e veio a tempestade.

Relógios voavam em redemoinhos

As mães abraçavam os filhos no colo

as crianças choravam

os velhos tremiam

E os olhos saltavam para fora das órbitas.

 

Não houve nuvens, mas algo

abstrato que inflou a cidade

deixando o céu carregado.

As aves voavam abaixo dos gritos

E as plantas longe abanavam

 

O povo corria nas ruas

As casas ficaram abertas e as perguntas

sem resposta.

 

Em ondas subia a cidade

as raízes, os alicerces, os pavimentos…

Quando acordei com um grito:

toda a casa estava em silêncio

e meu filho dormia em seu berço.

Agosto 18, 2006

Progresso das chuvas

Arquivado em: Lorenzo Ribas — miralume @ 9:44 am

A tarde inundou os cálices

Poças ficaram suspensas

nas copas.

A água na forma de uma carícia

livre, caída, deixada;

Tão humano eu não sabia

que humano eu era máquina.

 

O chão foi aberto em percursos,

A água deitada lavou os detritos

em fortes torrentes. Não me pergunte:

Eu já sabia, mas não podia.

 

Barulho de pânico e pressa alargava nas ruas

no entorno das rotas

E a água tocava nas flores melífluas

notas, nas últimas

águas

Enquanto gigantes sucumbem ao som de trombetas

E insetos eclodem depois das enchentes,

milhares, milhões, iguais e unânimes.

 

O sol porém secará os relógios

a tempo. Sabíamos:

em paz veio o dia.

Um homem trabalha,

Um cactos cresce,

Um lagarto espera.

 

A tarde que cai sobre nós talvez diga:

- distâncias às vezes tornam-se água.

Apanho o pouco que posso

e bebo nas mãos

que a sede sinto é sozinha.

 

As flores das copas, ainda cheias,

gotejavam, rubras, suicidas.

Agosto 11, 2006

O Cactus

Arquivado em: Lorenzo Ribas — miralume @ 5:44 pm

 

Nascido no mais árido

onde mais estéril fosse

brotaria solitário

Assim, por improvável.

 

Não planta de flores

de longe se calcula

porque é planta mineral;

mas de verde estentóreo

Assim, por improvável.

 

Assume o horizonte

desde a sua estatura

Por muito baixa que fosse

há muito já se enxerga.

Não a planta do suco

A planta solar.

 

Rastro fugidio

na palidez da pedra

Onde tudo está vetado

e é pungente o silêncio.

 

Onde não há movimento

parece

nem o sol se move

O cactus pulsa

cresce pouco a pouco

é lento, obstinado.

 

Na mais silenciosa manhã

da mais completa esperança

por puro improvável

do tédio, da solidão

ele nasce.

Julho 28, 2006

a Amilcar de Castro

Arquivado em: Lorenzo Ribas — miralume @ 2:58 pm

Amilcar conserva

o traço do grito

pousado no corte

aéreo e restrito.

 

Amilcar enterra

nas dobras do ferro

E o peso sussurra

Seu ato suspenso

 

O drama figura

A forja do tempo

 

único gesto

vôo esgotado

determinado

ao desprendimento.

Julho 21, 2006

Arquivado em: Lorenzo Ribas — miralume @ 6:52 pm

Henri Cartier-Bresson, New York, 1947   

Teu companheiro não tem perguntas

Nem quer mais nada de ti

O pouco calor que reparte

basta por ora

nos tempos de crise.

 

Teu amigo, bandido adotado,

talvez reconheça em teus olhos

Algo que treme de medo das gentes

E evita os domingos de parque e evita

os domingos de sol.

São tantas imagens! Tantas

histórias, tantos perfumes por algumas moedas!

Rodas que giram, cores

que nascem, a grama verde

para os corpos úmidos…

Tantos milênios fazendo cidades

-umas por cima das outras-

e não te previram? Por certo

nasceste errado.

 

As latas de lixo dos becos

A sombra dos prédios, enormes

grades, cem mil janelas

E em meio a tantas vozes que de longe chegam

rastejando na sarjeta,

perdidas,

com cheiro de poeira e pedra

E já não vendem não compram não rezam não falam

não choram nem riem não lamentam nada;

Sem nenhum consolo

tu

conversas com um gato.

  

Este fiapo à tua frente

ou pequeno trapo quente

ou acalanto demente

ou sonho diamante

no suor carvão da noite

na cidade terra morta

Gente, menos que gente.

Que importa?

 

E por trás do prédio

Numa placa

Lia-se a palavra

companhia.

Julho 14, 2006

Epiderme

Arquivado em: Lorenzo Ribas — miralume @ 5:50 pm

I.

O movimento das entranhas não se enxerga.

Nas águas estão enterradas, no vento dissolvidas. Na terra embruteceram superfícies.

 II.

Verter é subverter

arvorar voracidades

Brotar o verde

da pálida crosta.

 

É sempre por baixo

o sentido

por trás dos olhos

é que verte.

 

Entranhar é ter

estranhamento

Brotar não se prorroga

Desentranhar

é ver a luta

por viver ter consumado.

 III.

O que a combustão comove

o ar não arrefece

mas alimenta.

O ponto crítico

o epicentro

de toda criação

é comover a superfície

em calor e movimento.

Julho 8, 2006

Considerações acerca de um pôr-do-sol

Arquivado em: Lorenzo Ribas — miralume @ 5:48 pm

Porto Alegre, 23 de junho de 2006. No horizonte um corredor de nuvens antecipou o poente. Anoitece, e acho a esperança uma grande coisa, apesar de tudo. Um fulgor debateu-se nas entranhas gasosas do céu, como um pássaro ígneo. Algo que afunda e reclama em cores seu direito a explosão, por exemplo:

Um corpo rodeado por horizontes de areia dirige um grito para o céu, e conforme o grito sobe o corpo diminui;

Um pai chora seu filho;

Dois olhos que a loucura transformou em vidro concentram atenção para além da curva;

Uma mãe dá as tetas de mamar, sabendo que não possuem leite;

Uma ampulheta vazia;

Um cão coberto de poeira olha as folhas da copa de uma árvore;

Um cartaz de desaparecidos oferece recompensa;

Um banco;

Dois olhinhos exprimidos do outro lado da grade;

A pequena fissura na represa;

O amor como canção proibida;

A solidariedade no auge da desgraça;

Todas as utopias;

O silêncio dentro do trem;

A noite que engole tudo;

Um penhasco com destroços na goela;

A gaiola está vazia.

Junho 29, 2006

Arquivado em: Lorenzo Ribas — miralume @ 4:27 pm

Junho 23, 2006

Arquivado em: Lorenzo Ribas — miralume @ 1:59 pm

Sou terra da seca no quando da chuva

sou barro que espuma na crosta mais quente

a vida e o cio mineral da semente

o chão e o retrato do céu que se move.

 

Barulho da bolha brotando

tensão que dissolve

e lama que seca

eco e borbulho

silêncio da seca no quando da chuva.

 

Sou sempre alterado

e definitivo,

não sou de contrastes; meu nome é fusão

eu venho da luta

mas fui seduzido

meu nome é inundado torrão

 

Já fui mineral metálico, fui lâmina

hoje sou orgânico

sou bruma brotando de dentro do barro

A minha explosão é também meu afago.

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