Miralume.

Outubro 23, 2006

Sobre

Arquivado em: Telma Scherer — miralume @ 6:49 pm

Poesia demora, poesia é feita de silêncio. Talvez por isso esses espaços de vazio e nossas postagens cada vez mais raras. Para escrever é preciso às vezes respirar profundamente sem canto de olho para os outdoors, um minutinho de calma entre a turbulência dos ônibus, quietude no alvoroço da casa, solidão. Poema está sempre cobrando maturações e explicações. Poema pede que a gente faça as malas para vez ou outra ir olhar o sol. Poema livra das obrigações de Pis e Cpf. Não tem como arrancá-lo do umbigo sem muita paciência.
Respire com a gente, leitor. O Quintana escreveu algo mais ou menos assim: “Quem faz um poema abre uma janela./Respira, tu que estás numa cela / abafada/ esse ar que entra por ela. / É por isso que os poemas têm ritmo, / para que possas, enfim, profundamente respirar // Quem faz um poema salva um afogado”.
Poema no blog tem que ser regado como poema em página premiada. É assim, sem abandono.
Desculpem-nos. Desculpemo-nos. Obrigada por respirarem com a gente.

Setembro 6, 2006

AI XXI

Arquivado em: Telma Scherer — miralume @ 4:12 pm

Ruído constante,
Decreto das almas:

– A partir de hoje vige
a ditadura da felicidade.

Carros que passam, buzinam.

– Os que não sorrirem
23 horas por dia
serão caçados e torturados.

A cidade amanhece na penumbra.

Três viajantes no vagão:
1.Uma menina magra, blusa rasgada, marca no cangote;
2.Um garoto pobre, dormindo;
3.A mãe do garoto, sacola plástica, cabelos cinza.

– Eliminaremos todos os infelizes
com analgésicos, espermicidas, desinfetantes
e construiremos centros de reabilitação
com lojas
estacionamento
e florestas artificiais.

Agosto 29, 2006

Arquivado em: Telma Scherer — miralume @ 8:35 pm

Meu amor está sóbrio agora.
Olha fixamente a xícara de café.
Não quero dividi-lo nem mesmo com essa música.

As horas passam tranqüilas
pois me prendi no quarto
arrumei cem vezes a cama
e um corpo estendido me abraça,
sólido.

Agosto 8, 2006

Arquivado em: Telma Scherer — miralume @ 8:45 pm

os livros mais grossos

param de pé 

as folhas ao vento

dançam

Agosto 3, 2006

Família

Arquivado em: Telma Scherer — miralume @ 2:09 am

Risco a parede de poemas sujos.
Jogo o lixo no lençol.

Gostaram da comida?

Julho 28, 2006

Arquivado em: Telma Scherer — miralume @ 1:47 am

Início sem contexto

fila de supermercado

homem na lua

mulher na espera

paz na desordem

da última guerra

aumento de todos

os mínimos salários

lançamento de foguetes

para o teu aniversário

Julho 13, 2006

Receita pra pássaros

Arquivado em: Telma Scherer — miralume @ 6:46 pm

Despovoar a fazenda

e fazer pastar o gado

livre, quieto, simples, coruja

Afastar-se do zelo

do chão

Ir embora de si

de mansinho, desmaiando

desmaiando e calando sem sofrer

Vestir todas as cores

das borboletas

Estar gamado de asas

de vento

e arriscar

Sem receita para tédios noturnos

sem receita

cozinhar o mato dentro

e servir numa tigela

Igual osso pra cachorro

igual fenda

adormecer

Cozinhar mato com vento

e sentir fome

e comer

Voar pássaros

igual vôo de cimento

Julho 5, 2006

Para virar silêncio

Arquivado em: Telma Scherer — miralume @ 7:24 pm

Já eu não posso falar. Passo a vida toda olhando tudo com engasgo na garganta e quero pedir algum espaço, um depósito, algum lugar onde possa guardar as palavras mas elas me escapam sempre. Tudo que foge, por que é que é bonito?
Quando a conversa é interrompida por um gesto, o que é que acontece então? Quando a palavra pobre fica zonza e solitária, não podendo mais cumprir o seu sentido, e vira som, e vira coisa, ou pior, se apaga dentro do ar?
É preciso pegar na carne das palavras e xingar muito toda necessidade delas. Querer entrar no corpo como um sol na folha, leve, repousante, ainda assim penetrante e denso cobrindo a face toda, a face da folha, a face que fala.
É preciso alimentar tudo aquilo que tem carne e substância, além do som. A fotografia viva desse sol que escorre pelas folhas, a flor de bananeira que grita com seu vermelho dentro de um verde quase sempre não igual, tudo isso que tem cheiro.
Se por exemplo agora eu paro de escrever, então o que acontece é não ouvir mais o meu som de palavra e tentar o silêncio difícil. O silêncio impotente e quase sempre impossível de ouvir. Lá longe, por mais que a casa esteja quieta, passam carros, caminhões. A caixa d´água ressoa. E mesmo longe de toda a civilização há esse vento, os pássaros – nossos primeiros irmãos, porque cantam.
Eu tenho mais amizade com os pássaros do que com os cães.
Nem sempre o silêncio salva. De toda natureza o pior é o silêncio das cobras, o perigo ininterrupto do silêncio das aranhas, dos escorpiões, pois se eles já não são de ouvir, serão então de ferro e veneno e corte.
O silêncio é o maior perigo. Não um que deveria ser preenchido a todo instante de som, como o fato do tambor ou de tudo que é completo, cheio, desesperado. Essa objeção não é necessária.
O pior é o silêncio de um rosto vibrando em entonação reprimida quando se conversa com o vácuo das explicações.

Junho 27, 2006

Arquivado em: Telma Scherer — miralume @ 6:15 pm

Conheço todas as reentrâncias desta casa. Conheço os lugares onde se esconde o pó, as falhas no carpete, os vidros. A mancha na mesa de madeira, o sulco na parede da cozinha, o furo para o quadro que não veio.
Conheço todos os brilhos desta casa. Na manhã, o movimento do sol que invade a cozinha, e como o quarto fica escuro. Conheço as sombras das persianas e os desenhos que seus intervalos formam no chão. Conheço a dança dessas luzes no assoalho do quarto, e como mudam quando a gente deita ao contrário na cama.
Conheço o calor do banheiro no verão.
Conheço os cheiros desta casa. O lixo da cozinha quando não é recolhido. O sabonete se espalhando no corredor, misturado com xampu, quando abrem a porta. O cheiro da televisão novinha. O mofo nos armários.
Conheço todos os seus movimentos. O ruído da chave na porta, depois os passos pesados quando ela entra na sala. O som da pasta sobre a mesa, e o suspiro que ela dá todos os dias quando abre a porta da geladeira. Conheço o farfalhar da jaqueta de couro no inverno, e a diferença entre as botas e as sandálias contra o assoalho.
Aquelas três batidas da escova sobre a pia depois de limpar os dentes.
Abrir e fechar a porta do guarda-roupa.
Empurrar a cadeira de encontro contra a mesa da cozinha.
Puxar a descarga.
Acender o fogão.
Tirar as sacolas dos lixos e depois deixá-las na porta para juntá-las na saída.
E ela sai.
Fico parado. Não há motivo de conhecer outras paisagens. Agora mesmo uma mosca pousou na minha janela.

Junho 21, 2006

Arquivado em: Telma Scherer — miralume @ 3:03 am

O silêncio completo.

O silêncio surdo das comunicações telepáticas.

O silêncio transido dos mortos.

Nenhum som, nenhum prurido.

O silêncio dos papéis em branco,

Das cédulas guardadas na gaveta,

Das meias de nylon, das meias-calças, dos sutiãs apertados sob a blusa.

O silêncio do quarto de dormir da avó que morreu.

O silêncio dos filhos que partiram,

E que não voltem.

O silêncio das mobílias, dos depósitos.

Todas as portas e janelas fechadas.

Nenhum aparelho ligado.

Nenhum telefone.

Nenhum radar, nenhum cão.

O silêncio completo a ponto de ouvir

As lâmpadas elétricas.

 

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