Poesia demora, poesia é feita de silêncio. Talvez por isso esses espaços de vazio e nossas postagens cada vez mais raras. Para escrever é preciso às vezes respirar profundamente sem canto de olho para os outdoors, um minutinho de calma entre a turbulência dos ônibus, quietude no alvoroço da casa, solidão. Poema está sempre cobrando maturações e explicações. Poema pede que a gente faça as malas para vez ou outra ir olhar o sol. Poema livra das obrigações de Pis e Cpf. Não tem como arrancá-lo do umbigo sem muita paciência.
Respire com a gente, leitor. O Quintana escreveu algo mais ou menos assim: “Quem faz um poema abre uma janela./Respira, tu que estás numa cela / abafada/ esse ar que entra por ela. / É por isso que os poemas têm ritmo, / para que possas, enfim, profundamente respirar // Quem faz um poema salva um afogado”.
Poema no blog tem que ser regado como poema em página premiada. É assim, sem abandono.
Desculpem-nos. Desculpemo-nos. Obrigada por respirarem com a gente.
Outubro 23, 2006
Sobre
Setembro 6, 2006
AI XXI
Ruído constante,
Decreto das almas:
– A partir de hoje vige
a ditadura da felicidade.
Carros que passam, buzinam.
– Os que não sorrirem
23 horas por dia
serão caçados e torturados.
A cidade amanhece na penumbra.
Três viajantes no vagão:
1.Uma menina magra, blusa rasgada, marca no cangote;
2.Um garoto pobre, dormindo;
3.A mãe do garoto, sacola plástica, cabelos cinza.
– Eliminaremos todos os infelizes
com analgésicos, espermicidas, desinfetantes
e construiremos centros de reabilitação
com lojas
estacionamento
e florestas artificiais.
Agosto 29, 2006
Meu amor está sóbrio agora.
Olha fixamente a xícara de café.
Não quero dividi-lo nem mesmo com essa música.
As horas passam tranqüilas
pois me prendi no quarto
arrumei cem vezes a cama
e um corpo estendido me abraça,
sólido.
Agosto 8, 2006
Agosto 3, 2006
Família
Risco a parede de poemas sujos.
Jogo o lixo no lençol.
Gostaram da comida?
Julho 28, 2006
Início sem contexto
fila de supermercado
homem na lua
mulher na espera
paz na desordem
da última guerra
aumento de todos
os mínimos salários
lançamento de foguetes
para o teu aniversário
Julho 13, 2006
Receita pra pássaros
Despovoar a fazenda
e fazer pastar o gado
livre, quieto, simples, coruja
Afastar-se do zelo
do chão
Ir embora de si
de mansinho, desmaiando
desmaiando e calando sem sofrer
Vestir todas as cores
das borboletas
Estar gamado de asas
de vento
e arriscar
Sem receita para tédios noturnos
sem receita
cozinhar o mato dentro
e servir numa tigela
Igual osso pra cachorro
igual fenda
adormecer
Cozinhar mato com vento
e sentir fome
e comer
Voar pássaros
igual vôo de cimento
Julho 5, 2006
Para virar silêncio
Já eu não posso falar. Passo a vida toda olhando tudo com engasgo na garganta e quero pedir algum espaço, um depósito, algum lugar onde possa guardar as palavras mas elas me escapam sempre. Tudo que foge, por que é que é bonito?
Quando a conversa é interrompida por um gesto, o que é que acontece então? Quando a palavra pobre fica zonza e solitária, não podendo mais cumprir o seu sentido, e vira som, e vira coisa, ou pior, se apaga dentro do ar?
É preciso pegar na carne das palavras e xingar muito toda necessidade delas. Querer entrar no corpo como um sol na folha, leve, repousante, ainda assim penetrante e denso cobrindo a face toda, a face da folha, a face que fala.
É preciso alimentar tudo aquilo que tem carne e substância, além do som. A fotografia viva desse sol que escorre pelas folhas, a flor de bananeira que grita com seu vermelho dentro de um verde quase sempre não igual, tudo isso que tem cheiro.
Se por exemplo agora eu paro de escrever, então o que acontece é não ouvir mais o meu som de palavra e tentar o silêncio difícil. O silêncio impotente e quase sempre impossível de ouvir. Lá longe, por mais que a casa esteja quieta, passam carros, caminhões. A caixa d´água ressoa. E mesmo longe de toda a civilização há esse vento, os pássaros – nossos primeiros irmãos, porque cantam.
Eu tenho mais amizade com os pássaros do que com os cães.
Nem sempre o silêncio salva. De toda natureza o pior é o silêncio das cobras, o perigo ininterrupto do silêncio das aranhas, dos escorpiões, pois se eles já não são de ouvir, serão então de ferro e veneno e corte.
O silêncio é o maior perigo. Não um que deveria ser preenchido a todo instante de som, como o fato do tambor ou de tudo que é completo, cheio, desesperado. Essa objeção não é necessária.
O pior é o silêncio de um rosto vibrando em entonação reprimida quando se conversa com o vácuo das explicações.
Junho 27, 2006
Conheço todas as reentrâncias desta casa. Conheço os lugares onde se esconde o pó, as falhas no carpete, os vidros. A mancha na mesa de madeira, o sulco na parede da cozinha, o furo para o quadro que não veio.
Conheço todos os brilhos desta casa. Na manhã, o movimento do sol que invade a cozinha, e como o quarto fica escuro. Conheço as sombras das persianas e os desenhos que seus intervalos formam no chão. Conheço a dança dessas luzes no assoalho do quarto, e como mudam quando a gente deita ao contrário na cama.
Conheço o calor do banheiro no verão.
Conheço os cheiros desta casa. O lixo da cozinha quando não é recolhido. O sabonete se espalhando no corredor, misturado com xampu, quando abrem a porta. O cheiro da televisão novinha. O mofo nos armários.
Conheço todos os seus movimentos. O ruído da chave na porta, depois os passos pesados quando ela entra na sala. O som da pasta sobre a mesa, e o suspiro que ela dá todos os dias quando abre a porta da geladeira. Conheço o farfalhar da jaqueta de couro no inverno, e a diferença entre as botas e as sandálias contra o assoalho.
Aquelas três batidas da escova sobre a pia depois de limpar os dentes.
Abrir e fechar a porta do guarda-roupa.
Empurrar a cadeira de encontro contra a mesa da cozinha.
Puxar a descarga.
Acender o fogão.
Tirar as sacolas dos lixos e depois deixá-las na porta para juntá-las na saída.
E ela sai.
Fico parado. Não há motivo de conhecer outras paisagens. Agora mesmo uma mosca pousou na minha janela.
Junho 21, 2006
O silêncio completo.
O silêncio surdo das comunicações telepáticas.
O silêncio transido dos mortos.
Nenhum som, nenhum prurido.
O silêncio dos papéis em branco,
Das cédulas guardadas na gaveta,
Das meias de nylon, das meias-calças, dos sutiãs apertados sob a blusa.
O silêncio do quarto de dormir da avó que morreu.
O silêncio dos filhos que partiram,
E que não voltem.
O silêncio das mobílias, dos depósitos.
Todas as portas e janelas fechadas.
Nenhum aparelho ligado.
Nenhum telefone.
Nenhum radar, nenhum cão.
O silêncio completo a ponto de ouvir
As lâmpadas elétricas.