Miralume.

Setembro 11, 2006

Sardas

Arquivado em: Carla Laidens — miralume @ 5:11 pm

Pelos caminhos em que passo
as sardas ficam

Uma a uma as deixo
em lugares
pessoas olhos e bocas

Um rastro
de quem quer ficar
um pouco em cada lugar
um pouco em cada ser

São as únicas coisas que de mim permanecem
do resto
nada há

Setembro 8, 2006

Moldura

Arquivado em: Diego Petrarca — miralume @ 12:50 am

 

Sétima madrugada sem dizer nada. Bandeira ilegível, roupa daquele dia. Flutuava noutra direção sem espanto, quando, devagar, o esforço pra silenciar. Ao menos os quadros tortos teimavam, intactos na parede.

Setembro 6, 2006

AI XXI

Arquivado em: Telma Scherer — miralume @ 4:12 pm

Ruído constante,
Decreto das almas:

– A partir de hoje vige
a ditadura da felicidade.

Carros que passam, buzinam.

– Os que não sorrirem
23 horas por dia
serão caçados e torturados.

A cidade amanhece na penumbra.

Três viajantes no vagão:
1.Uma menina magra, blusa rasgada, marca no cangote;
2.Um garoto pobre, dormindo;
3.A mãe do garoto, sacola plástica, cabelos cinza.

– Eliminaremos todos os infelizes
com analgésicos, espermicidas, desinfetantes
e construiremos centros de reabilitação
com lojas
estacionamento
e florestas artificiais.

Adivinhar o idioma

Arquivado em: Carlos Besen — miralume @ 1:24 pm

Os filhos de minha vó têm a língua seca de tinta, mas a crueldade de suas filhas não hesita: manda cartas que ela não pode ler. E não são missivas estrangeiras: minha vó vive cada alfabeto como idioma de distância. Ela coleciona cartas como se montasse um álbum de figurinhas, um baralho espanhol. À tarde, depois da sesta, minha vó as abre e as distribui sobre a mesinha do quarto. O buraco da fechadura é estreito para escutar o que ela balbucia para os papéis, para ler a sintaxe dos lábios. Privado da janela da boca, ainda espio indiscreto: cartomante, minha vó perpassa com o dedo o mero presente no relevo desenhado da caligrafia.

Setembro 4, 2006

Poema

Arquivado em: Carla Laidens — miralume @ 1:18 am

palavras
escondidas
disformes
formas

nascem
pedras
polidas
colhem
vida

deslizam
pelo tempo
discorrem

morrem
carnudos
frutos
abocanhados

ressuscitam
nas entranhas
correm
veias
cérebro
coração

digeridas
escapam
partículas
sementes
ao vento

Arquivado em: Lorenzo Ribas — miralume @ 1:16 am

Como se pássaro fosse

despontando no mergulho

do real da liberdade;

E com classe, feito ave

a romper o ar pesado

Como fosse sonora coisa,

Sim, como gritar pudesse;

  

Um pano desbotado

planou por sobre os prédios  

E viu-se na cidade,  

talvez reconhecido: 

Coisa real e numérica,

larga, monótona,

que, tendo escapado,

t a m b é m e r a c i n z a.

Agosto 31, 2006

Arquivado em: Diego Petrarca — miralume @ 3:57 am

Recuso descobertas

é muito mais

difícil

desaprender as coisas

Agosto 29, 2006

Arquivado em: Telma Scherer — miralume @ 8:35 pm

Meu amor está sóbrio agora.
Olha fixamente a xícara de café.
Não quero dividi-lo nem mesmo com essa música.

As horas passam tranqüilas
pois me prendi no quarto
arrumei cem vezes a cama
e um corpo estendido me abraça,
sólido.

Agosto 28, 2006

Água próxima, terra curta

Arquivado em: Carlos Besen — miralume @ 11:39 pm

Os dias
mais curtos
que um braço:

ao fazer
as mãos,

deixo um dedo
para o rosto,uma ilha
para a água.

Agosto 27, 2006

Segredos marinhos

Arquivado em: Carla Laidens — miralume @ 6:22 pm

amor do mar:
a maré

a maré
alta
arrasta
incauta

a maré
tormenta
arrebenta
violenta

a maré
talante
constante
amante

a maré
decesso
processo
retrocesso

« Página anteriorPróxima Página »

Blog no WordPress.com.