Pelos caminhos em que passo
as sardas ficam
Uma a uma as deixo
em lugares
pessoas olhos e bocas
Um rastro
de quem quer ficar
um pouco em cada lugar
um pouco em cada ser
São as únicas coisas que de mim permanecem
do resto
nada há
Pelos caminhos em que passo
as sardas ficam
Uma a uma as deixo
em lugares
pessoas olhos e bocas
Um rastro
de quem quer ficar
um pouco em cada lugar
um pouco em cada ser
São as únicas coisas que de mim permanecem
do resto
nada há
Sétima madrugada sem dizer nada. Bandeira ilegível, roupa daquele dia. Flutuava noutra direção sem espanto, quando, devagar, o esforço pra silenciar. Ao menos os quadros tortos teimavam, intactos na parede.
Ruído constante,
Decreto das almas:
– A partir de hoje vige
a ditadura da felicidade.
Carros que passam, buzinam.
– Os que não sorrirem
23 horas por dia
serão caçados e torturados.
A cidade amanhece na penumbra.
Três viajantes no vagão:
1.Uma menina magra, blusa rasgada, marca no cangote;
2.Um garoto pobre, dormindo;
3.A mãe do garoto, sacola plástica, cabelos cinza.
– Eliminaremos todos os infelizes
com analgésicos, espermicidas, desinfetantes
e construiremos centros de reabilitação
com lojas
estacionamento
e florestas artificiais.
Os filhos de minha vó têm a língua seca de tinta, mas a crueldade de suas filhas não hesita: manda cartas que ela não pode ler. E não são missivas estrangeiras: minha vó vive cada alfabeto como idioma de distância. Ela coleciona cartas como se montasse um álbum de figurinhas, um baralho espanhol. À tarde, depois da sesta, minha vó as abre e as distribui sobre a mesinha do quarto. O buraco da fechadura é estreito para escutar o que ela balbucia para os papéis, para ler a sintaxe dos lábios. Privado da janela da boca, ainda espio indiscreto: cartomante, minha vó perpassa com o dedo o mero presente no relevo desenhado da caligrafia.
palavras
escondidas
disformes
formas
nascem
pedras
polidas
colhem
vida
deslizam
pelo tempo
discorrem
morrem
carnudos
frutos
abocanhados
ressuscitam
nas entranhas
correm
veias
cérebro
coração
digeridas
escapam
partículas
sementes
ao vento
Como se pássaro fosse
despontando no mergulho
do real da liberdade;
E com classe, feito ave
a romper o ar pesado
Como fosse sonora coisa,
Sim, como gritar pudesse;
Um pano desbotado
planou por sobre os prédios
E viu-se na cidade,
talvez reconhecido:
Coisa real e numérica,
larga, monótona,
que, tendo escapado,
t a m b é m e r a c i n z a.
Meu amor está sóbrio agora.
Olha fixamente a xícara de café.
Não quero dividi-lo nem mesmo com essa música.
As horas passam tranqüilas
pois me prendi no quarto
arrumei cem vezes a cama
e um corpo estendido me abraça,
sólido.
Os dias
mais curtos
que um braço:
ao fazer
as mãos,
deixo um dedo
para o rosto,uma ilha
para a água.
amor do mar:
a maré
a maré
alta
arrasta
incauta
a maré
tormenta
arrebenta
violenta
a maré
talante
constante
amante
a maré
decesso
processo
retrocesso